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livro dos dias

o vivente no percurso do dia redige muitos livros. em cada fala, uma frase em cada olhar, um capítulo em cada adeus, um epílogo em cada elogio, um prefácio em cada lista, um índice em cada amor, um parágrafo. nomes, pessoas e sítios podem ser encontrados no índex on omástico ao final desta edição, junto à indicação das ilustrações. esforço-me para manter Livro dos Dias em compasso de manual, com lições que constante exigem novas edições, evitando transformá-lo em compêndio de virtudes e malefícios, ansiando que seus erros de revisão concedam-lhe o bom sentido que minhas limitações negaram. Ó Musa, afastai-nos das elegias que para nada servem, que meramente apressam o passo natural das coisas. Já carregamos Breviário de melancolias e não precisamos de Panegírico da tristeza para nos sentirmos tristes. Ao malogrado Autor, é favor que de graça e leveza utilize. Leiamos nossos livros de quando em quando, pois o dia não é tecido sozinho. Ergamos no...

a cidade das ruas

dá-me suas almas seus operários seus perdidos seus velhos sem abrigo suas crianças felizes deixem que pisem sobre mim atravessem-me rumo a melhores dias. que ouçam as melodias que toco para elas que sintam no concreto no aço e na argila minha matéria minha imortalidade que aprendam minha poesia. que descubram meus meandros, filhos da engenharia que encontrem o amor e a angústia em minhas calçadas e esquinas que se afoguem em meus bares e se salvem em minhas igrejas. que nunca mais sintam que estão aqui por acaso fui criada apenas para criá-los, para que chorem e para que vivam para que confessem suas almas.

poetas portugueses (1)

Florbela, Espanca-me.

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eu construo minha vida como um castelo de cartas, sólido o bastante para durar o suficiente, pronto para ser demolido no instante seguinte. O vento me trouxe até aqui; e o vento me levará embora.

soneto da selvageria

Por quereres que entendo desabridos, fogo se fez; em alarido. Com tantos instintos sem abrigo, a faísca abriu o inferno dos sentidos. Pululava carne! Divina danação da qual o homem não tem memória, quem lá esteve entrou para a história como um fauno cruzando o Rubicão. Os humores juntaram um oceano, os gemidos compuseram sinfonia, um grito rompeu o dia. Despertou um vizinho coreano, certo da paz matinal. Mas! Ei! Ouvia, o vaivém não se interrompia!

deitamos

Deitemos nesses leitos em meio à folhagem, cada um vindo de um país estranho, cada um de seu lar. Somos mesmos uns desterrados em nossa própria terra. Exilados, buscamos o chão nos olhos do outro, buscamos desesperadamente o toque gentil da areia molhada por entre os dedos, o pôr-do-sol calado por entre os morros, a gíria, o sotaque, sou para ela um experimento linguístico, examinamos nossas línguas e compomos nova gramática. Aqui, na planície escura e desabitada dos meus desejos, encontrei a sua certeza torta de deportada. Um caminho inseguro de quem não entende nada...

modernidade

Chegou do expediente, finalmente. Pega o pão, fiz um ovo quente, arrasta uma cadeira e senta junto, precisamos falar certos assuntos. Te vi ontem à tardinha no Centro, quando saía do trabalho. A mão que envolvia a sua mão não era a minha. Gelei. Tanto quis te esquecer, mas ali você parecia tão feliz. Te odiei. Parei. Refleti, e decidi, digo de vez: traz ela aqui pra morar nós três!

o comprimento de onda

Vácuo que se propaga sideral, ao cosmo velho minha vida se destina. Alguém, porém, salvou-me da mortífera espiral, transportou-me a anos-luz da minha sina! Teu comprimento de onda, querida, com amplitude por mim jamais testemunhada. Singra meu espaço como de luz foste nascida, descobrindo-te em mim, muitas galáxias. As hostes digitais se acumulam pelo universo... um e zero, um e zero... ocas e surdas, a ninguém falam. Apenas tu, arquitetada com esmero, oscila-me; sons contra luzes lutam e teu analógico desvario escutam!

o retorno do átomo

Vejo na rua o protesto do povo, temeroso do retorno do átomo, a mesma força que, num átimo ameaça varrer Hiroshima de novo. Dois gigantes se olhavam por um olho, ciclopes suicidas, com tais átomos candentes. Hoje não mais: o conflito misterioso com o terror não é como antigamente. Se a ciência funde o núcleo com intenções assassinas, também move engenhos e turbinas. Cada núcleo traz em si o seu dilema: se nutre a ameaça de outras Hiroshimas também o sonho do mundo alimenta.

maneira tal

Maneira tal flor parecente flor-de-laranjeira, ramo e copo, tudo adjacente justaposto sobremaneira. Céu liquefaz; chuva, suplício e doçura, tal núpcia que sempre continua, morte doce que nunca termina. À beça; demasia; vício. de exagerar ínfimo, natural desperdício. Pára; arqueja; ânimo, suspiro. Malefício, túrgido precipício.

i want to corrupt

i want to corrupt my body in front of thee so I can sing of a new philosophy. Therefore, be not alarmed if blood seeps from my gums if blood up my throat finds a way, if my muscles fill you with dismay, the way they hang over my organs´ sway. if the cavities my face shows deepen and darken during daytime, forgive them. for they are not to be seen except in nighttime. forgive if my torso bows low over my hips, and if my hips loom over my legs, and if my legs, twisted and turned as they are, end in bony and flat feet. this crumpled and bloody body was made just for thee.

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eu quero ir pra casa mas não tenho mais casa, queimei a minha casa e agora o mundo se estende diante de mim. ele é grande, mas não é casa. eu posso ir pra qualquer lado. eu posso sorrir em todos os meridianos, todas as latitudes posso visitar. agora sou capaz de ver todos os rostos e cheirar todos os pescoços. mas porque isso só me lembra que não tenho mais lar? que não posso resgatar o chão de casa, o cheiro das coisas, a idade favorita, tão sentida que já passou, para não mais voltar. temo que nem cheguem perto do sol da minha infância as luzes das noites do mundo. receio que os gostos desses becos vastos empalideçam diante do sabor úmido do passado. sei que gostos se contrapõem, se sucedem e que o passado é mais fácil que o presente. mas está difícil, está difícil. * eu não quero estar aqui e quando aqui não mais estar não desejarei estar em outro lugar além daquele de onde parti. a isso chama-se saudade. isso é muito brasileiro. desejarei sentir a rua da fumaça das castanhas e as m...

ontem

ontem nasci, amanhã morro. e hoje? sei lá mas a noite já chega.

a vida é névoa

a vida é névoa e já não enxergo mais nada não vejo a estrada vou cair na ribanceira vou capotar e vou morrer e ninguém vai perceber aquele destroço na névoa aquele jeito de nada aquele namorado insensato que condenou duas almas pela simples inabilidade de ver além da neblina de inventar o invisível de perfurar a aquarela de vencer aquela névoa que se via e não se via.

soneto da rua

Volto do labor meio telúrico, assim atarantado, filho da Lua; súbito torno, idéia mudo, à rua, à rua, à rua, à rua! No lar desconheço barulhos, tudo é paz, nada é poesia pois poesia é beber da rua seus murmúrios e de silêncios a morte já come em demasia. Saúdo o garçom, amigo Teles, que já enxotou três antes das nove: antes das dez serei um deles. Mas o que o amigo Teles desconhece é que a ciência, e não Baco, me move: examino quanto fígado permanece!

soneto de culpa

Tu, tu, somente tu que me deste um fragmento de semente carcomida, o único ser sob o tapete celeste que me ofereceu a esmola querida. Eis minha gratidão: meu apreço por me ter salvo da miséria e da fome; presenteio-te com a praga e o insucesso, submeto-te aos dentes dos que não comem! Podes esperar tudo de um faminto, menos gratidão. Inexiste para mim esse vocábulo burguês. A fome de mim um animal já fez e se protestas com o dedo em riste, Recorda-te: que fome jamais sentiste!