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Desafio "1001 Filmes": 30 a 34

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30) “A deusa” (“Shen nu”, 1934) O cinema chinês é uma grande esfinge esperando ser decifrada. Para mim, ao menos. Zhang Yimou, Chen Kaige, Wong Kar-Wai, Jackie Chan, Jiang Ke... só o conheço a partir dos anos 90, assistindo a fitas de videocassete. E apenas os filmes realizados por homens. Ver um filme chinês mudo, dos anos 30, portanto, é uma revelação cinéfila, ainda mais forte porque a grande razão de ser desse filme é a persona de Lingyu Ruan (1910-1935), grande diva chinesa que cometeu suicídio aos inacreditáveis 24 anos. A “deusa” do título é Ruan, interpretando o papel corajoso de uma prostituta de Xangai que, desafiando a moral de sua época (e da nossa, aliás), cria, sozinha, seu filho pequeno. Ela o matricula numa escola primária, onde o menino sofre o estigma de ser filho de uma meretriz. Trata-se de um melodrama bem filmado e de roteiro inteligente, ainda que com tom moralista e moralizante. Mas é difícil falar de outra coisa além da grande atuação da protag...

Desafio "1001 Filmes": 25 a 29

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25) "O mistério da torre" ("The lavender hill mob", 1951) Uma das comédias clássicas do estúdio inglês Ealing (já resenhei "As oito vítimas", 1949, leia AQUI ). Apesar de um pouco inferior a "As oito vítimas" e "Quinteto da morte" (1955), "O mistério da torre" ainda traz a marca registrada dos filmes da Ealing, como o roteiro inspirado e a atuação brilhante de Alec Guinness, chamado "o homem das mil faces" por seu talento em viver tipos diferentes, tal qual um Chico Anysio britânico. Aqui, Guinness é um pacato funcionário de banco que planeja um roubo milionário: furtar ouro e contrabandeá-lo na forma de réplicas da torre Eiffel. É incrível como, mais de 60 anos após o lançamento do filme, o humor ainda se sustente. Os personagens são credíveis, as situações são genuinamente cômicas, o pastelão funciona, etc. Destaque para a abertura do filme no Rio de Janeiro e a participação-relâmpago de uma jovem Audre...

infância raiz

- Fabrício, é você?! Gente, esse aqui é meu sobrinho, Fabrício! - Oi, tio. - Faz tempo que não te vejo! Já te peguei no colo! Agora tá um rapazote bonito, olha só! Quer uma cervejinha? - Tio, tenho treze anos. - E daí? Na sua idade, eu já caía de porre! E na escola? Pegando muita mulher?! - Ainda não. - Rapaz, na sua idade eu já tinha embuchado uma menina. - Sério? E cadê seu filho? - Ah, larguei com a mãe, né... eu era muito jovem pra ser pai. Mas então, se você não bebe nem tá pegando mulher, quê que você faz?! - Tô escrevendo uma fanfic. - Fan... o quê? - É um conto baseado no universo de um filme ou de uma banda que a gente gosta. - Sei. - E ganhei o terceiro prêmio da olímpiada de robótica na minha escola. Meu grupo inventou um game educativo. - Bacana. Educação é importante. Mas então, Fabrício, você gosta de carro? - Não, tio. - Não gosta de bebida, mulher nem carro. - Gosto de ler. - Sei. Bacana. Ler é importante. - Vou indo, tio. - Tá certo, Fabrício. Manda um abraço pra sua ...

Desafio “1001 Filmes” - nos. 20 a 24

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20) “O boulevard do crime” (“Les enfants du paradis”, 1945) Poucas vezes um cinéfilo assiste um filme e se dá conta de que está diante de um clássico, daqueles que justificam os irmãos Lumière terem inventado aquela caixinha estranha. “2001, uma odisseia no espaço” é um clássico; “Ran” é um clássico; e “Les enfants du paradis”, indubitavelmente, é um clássico. Citado por dez entre dez críticos franceses como um dos melhores filmes já realizados, o filme traz uma daquelas histórias rocambolescas, que parecem contadas por Victor Hugo ou Alexandre Dumas. No século XX, porém, esse bardo recebe o nome de Jacques Prévert, não apenas um grande roteirista como também um dos maiores nomes da poesia francesa no século passado. Ambientado no mundo do teatro francês do início do século XIX, “O boulevard…” reconstitui durante três horas - que parecem voar, aliás, de tão fluido que é o filme -, os encontros e desencontros de três homens - o ator canastrão Frederick Le...

reencontro

- Fulano, é você?! - Rapaz! Dê cá esses ossos! - Encontrar você no meio da rua! Que grata surpresa! - Emagreceu, hein? - Andei me cuidando. Passei dos quarenta, já viu... mas você engordou. - He he he, um pouco. Tive filhos, sabe como é. - Parece mais que engoliu os filhos! - He he. Tô fazendo dieta. - Só se for dieta de engorda. - Engraçadinho. - Sério, você tá um boi. - Porra, mas vai ficar martelando isso? Virou a Ana Maria Braga agora? - Uai, eu só... - "Eu só", nada! Dez anos sem te ver e tudo o que cê tem a dizer é que eu engordei? Puxa vida! - Mas amigos falam tudo um pro outro. - Sim, tudo... mas tem um limite, né? Senão constrange. - Você tá com mau hálito também. - Tsc, olha só, tchau, viu? A gente se esbarra de novo daqui a dez anos. - Oquei. Não fica chateado pela sinceridade, tá. - Hm. - E vê se perde uns quilos! - Vê se toma no cu!

Desafio “1001 Filmes” - nos. 16 a 19 - Medley

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"Uma janela para o amor" (“A Room with a view”, 1985) Quem não gosta de um belo filme de época com belas paisagens, atores falando com sotaque afetado, gravatinhas borboleta e convenções sociais ultrapassadas? Possível resposta: eu. A dupla James Ivory e Ismail Merchant - diretor e produtor, respectivamente - , companheiros na vida e no trabalho, realizaram alguns filmes memoráveis, como “Retorno a Howard´s End” (1992) e “Os Vestígios do Dia” (1993). Criaram uma espécie de “marca registrada”, especializando-se em adaptações literárias de requinte com leve toque cômico, estilo hoje reciclado em séries como “Downton Abbey”.  Infelizmente, “Uma Janela para o Amor”, adaptado de E. M. Forster, não está entre os melhores títulos da dupla. Sim, o elenco é estelar - Helena Bonham Carter, Judi Dench e Maggie Smith, além de Daniel Day-Lewis num de seus primeiros papéis no cinema - e a direção de arte é primorosa (venceu o Oscar da categoria), como convém a um produto ...

Desafio "1001 Filmes" - no. 15 - “As Oito Vítimas” (“Kind Hearts and Coronets”, 1949)

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“É tão difícil matar pessoas com quem não se tem uma relação de familiaridade”, afirma o anti-herói Louis Mazzini (Dennis Price). No caso, Mazzini busca se familiarizar com os membros de uma família aristocrática inglesa, os D´Ascoynes, para eliminá-los um a um e abrir caminho para herdar o título de duque da dinastia. A ironia, sombria e amarga, dá o tom da frase e do filme. Trata-se de uma das maiores comédias de humor negro já filmadas, clássico do cinema britânico produzido pelos Estúdios Ealing, responsável pelo também célebre “Quinteto da Morte” (“The Ladykillers”, 1955). Logo nos primeiros momentos, é fácil constatar o que fez de “As Oito Vítimas” um clássico que perdura 70 anos após seu lançamento. O roteiro primoroso e avançado para a época, co-escrito pelo diretor Robert Hamer, trilha a linha tênue entre a comédia e a tragédia, dando complexidade e charme ao personagem de Mazzini (a sutil interpretação de Dennis Price vai no mesmo sentido). De fato, não...