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Mostrando postagens com o rótulo prosa

contúsculo (2)

Em 24 de outubro de 2009, Rogério Fagundes foi preso no aeroporto de Guarulhos, São Paulo, quando tentava embarcar num voo para Berlim com duas pistolas Glock e uma submetralhadora Uzi em sua bagagem de mão. Fagundes não possuía qualquer licença para portar as armas, as quais, conforme contou à Polícia Federal, havia adquirido de um "amigo colecionador". Protestou, por outro lado, que a exigência de porte de armas era esdrúxula perto da importância da missão que executaria na capital alemã: matar   Adolf Hitler . Segundo o depoimento, o corretor de imóveis de 43 anos, descrito por um familiar como um homem pacato e afetuoso, incumbiu-se da bizarra tarefa após assistir ao filme "Operação Valquíria", estrelado por   Tom Cruise . A obra, que narra o atentado frustrado de oficiais alemães ao   Fuhrer   em 1944, impressionou Fagundes a ponto de fazê-lo pesquisar outras tentativas para assassinar Hitler. Chamou sua atenção o fato que ninguém fora capaz de eliminar o c...

contúsculo (1)

Só percebi que esse moço tava na sala quando ele gritou pedindo uma cerveja, seu juiz. - E um caldinho de feijão! - disse. - Aliás, feijão não. Tem de sururu? Dei um berro que ele pulou, quase esqueceu da cerveja. Quê que um homem estranho tava fazendo na minha sala? Moro sozinha, Meretríssimo. - Meretíssimo, minha senhora. Prossiga. - Uma gelada! - ele insistiu - Cheguei hoje de São Paulo, faz cinco anos que não bebo no meu bar favorito. Tentei explicar que o bar tinha fechado há mais de três anos e eu tinha alugado a casa, mas ele bateu o pé e fez de refém um vaso bonito que tenho em cima da mesa. - O cardápio! O cardápio!! - E o quê a senhora fez? O que eu podia fazer, seu juiz? Fui pegar uma cerveja no congelador. Vai que assim ele ia embora.

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Neste exato momento, 19h32m55s de 22 de dezembro de 2010 d.C., deste exato lugar, -8° 8' 13.67" graus de latitude e -34° 54' 8.12" de longitude, em Recife, Brasil, costa oriental da América do Sul, vejo o mar. O sol se pôs; a escuridão é combatida pela luz irradiada das lâmpadas fosforescentes instaladas em postes, além de pelos faróis que percorrem a avenida beira-mar abaixo como vagalumes indiferentes. A maré alta espirra espuma contra os muros de pedras construídos para desacelerar tanto quanto possível o avanço inexorável do mar. Vejo a cena a oito andares de altura. Pessoas caminham pelo calçadão entre a avenida e o muro de pedras. Algumas estão sentadas num quiosque de tenda branca, erguida como picadeiro, bebendo alguma cerveja ou tomando alguma sopa. Ocasionalmente, uma bicicleta cruza a ciclovia entre a avenida e o calçadão. São muitas camadas que me separam do mar, mas, neste exato momento, sinto-me perfeitamente integrado a ele, como se nele me encontrass...

Karim my Friend

I´ve made a new friend today. His name is Ibrhm Karim. Mr. Karim has sent me an e-mail. Prior to this e-mail, I had no knowledge of the existence of Mr. Karim. I´m very glad he chose me as a friend, though. You might think strange I call Mr. Karim a "friend", having merely received an e-mail from him with no previous contact established between us. But I wasn´t the first one to offer friendship: read for yourself the message below and you will see he addresses me not only as a "friend", but a "good friend". And not only that: I am to him "my good friend". We belong. We are true friends. Together we can face the hardships and the cruelties of this world, for they are many and you need good friends to endure. You need family. You need love. I have friends, but true friends are always h ard to come by - and very few people close to your heart can indeed be called "friends" in the true sense of the word. These days, for someone to take...

a noite eterna

Aqui, sob efeito das persianas e do olhar soturno dos clientes, Noite parece eterna. São 13h de um sábado ensolarado, mas o sol não foi convidado. As paredes estão pintadas de preto, e a pouca cor provém do púrpura das lamparinas e dos sofás que ladeiam as mesas, mais lúgubres ainda. Algumas pessoas pensam melhor no escuro. Outras só funcionam quando nele imerso. O jazz foi inventado em Noite. Ele quase não exerce efeito à luz do dia. O mesmo ocorre com o sexo, o roubo, o cigarro e o uísque. Seus efeitos são comprovadamente mais fracos no período entre a aurora e o crepúsculo. Naturalmente, a redução da visão em Noite aguça outros sentidos, transformando-nos em criaturas de rapina. De dia, todos são forçados a serem bons, ou fingirem sê-lo. Em Noite, os bons são devorados. Devem se esconder de animais noturnos, ou, mais comum, metamorfosearem-se em criaturas de rapina, para sobreviver. Vícios são abençoados pela escuridão. A lei e a ordem pertencem ao dia. Em Noite, são acidentes...

qualquer dor

Qualquer dor é um tormento, mas também pode ser uma grande amiga. Quando o dia se fecha em volta e eu arrisco dissolver na multidão, aquela dor familiar erupciona e exige atenção, e, aí, posso defender: "eu não sou um igual, eu tenho consequência, não sou ninguém além de mim, eu sofro desta dor e ela sofre de mim, estamos juntos e não pertencemos ao mundo, mas o mundo nos pertence..."

dia do contrário

Ele volta à casa após o trabalho. Encontra a esposa: - Tchau, amor. - beija. - Tchau! Foi ruim o trabalho? - Uma porcaria. - ele diz, sorrindo. Hoje é o dia do contrário. - Lá no escritório, o chefe não falou comigo hoje! - ela exclama. - Sério? E o que ele não disse? - Que não ganhei o aumento. - Que horror. - ele diz, e a beija novamente - Parabéns! - De nada. Com graça e ingenuidade, os dois inventaram um jogo que, durante um dia por ano, estimula a vida a dois de modo criativo e dinâmico. Algo que todo casal poderia praticar, recomendado nos últimos lançamentos de renomados especialistas em relações amorosas. O telefone toca. - Não vou atender. - ela diz, e levanta o fone. - Alô? Gradualmente, seu sorriso transforma-se num muxoxo e, daí, em desespero. - Não é uma mulher - murmura - Disse que não é sua esposa e que não quer fala r com você. Acabou a brincadeira.

examinou os olhos

Examinou os olhos da moça, desviou a vista, retornou e perscrutou os olhos apertados novamente, desta vez se demorando no papel que interpretavam em seu rosto redondo de européia do leste, as maçãs largas, a boca fina, os cabelos ondulados que cobriam as têmporas e faziam com que a extensão da face fosse inaugurada e encerrada pelos olhos estreitos, vítreos, puros, ansiosos, que interrompiam a marcha de um exército. Não sabia se foram aqueles olhos de Volga ou se seu próprio estado, ainda abalado pela morte de Sofia, mas lágrimas umedeceram sua face e estreitaram-lhe a garganta. Fungou. Com vagar, depositou duas moedas nas mãos do vendedor de rua e levou a fotografia para casa. Não imaginava onde iria pendurá-la; o que sabia é que não poderia deixar a moça ali, largada na calçada.

paris

Paris era linda àquela época do ano. Pena que ele tinha tão pouco tempo. Entrou no primeiro táxi que viu e pediu para ir à Notre Dame. Quando chegou, contemplou a catedral o mais intensamente que pôde, procurando fixar os mínimos detalhes, os gárgulas, os sinos, na memória. Levou uns cinco minutos e, logo em seguida, correu para a estação do metrô. Desceu na parada próxima ao Arco do Triunfo. Correndo pela Champs Elysèe, alcançou a Torre Eiffel. No caminho, esbarrou em parisienses apressados na rua, também para eles o tempo era escasso. Era uma pena, mas, se ele dispunha de tão pouco tempo, o melhor era ver o máximo possível de coisas. Finalmente, após passar diante do Louvre, comprou um crepe no primeiro café que encontrou e o enfiou todo na boca, afogando-o com um capuccino. Ainda de boca cheia, flertou brevemente com uma jovem sentada num banco próximo. Em seguida, recomeçou a correr Só parou quando chegou a Montmartre, às portas da Sacré Coeur. Subiu as escadas esbaforido, as p...