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diplomata moderno

Eu falo de Istambul como se fosse o bairro de São José, troco de passaporte como de cueca, menciono um taxista que peguei em Nova York certa vez, falo francês, finjo um pince nez , uma guerra civil, uma festa na Embaixada, eu falo de Roma como se tivesse sido na semana passada. Eu sou feliz, diplomata moderno feliz. Bebo para me lembrar da felicidade. Pois! Bebamos, falemos de chefes e viagens, do dinheiro e da falta do dinheiro, de como todo mundo acha que um diplomata moderno vive em festa, eu vivo em festa. Eu compro a Monocle e com o iPhone posto no Facebook minhas últimas proezas. No meio dessa orgia de modernidade, um Vinicius  faux , nem ligus para os pares de olhos que ficam no Brasil. Tento me esquecer das pensões alimentícias, dos divórcios, dos estresses, dos ócios, do jet-lag, da vontade imperial de chefes e ministros, da escola dos filhos. Às vezes só quero ficar só. Às vezes só quero voltar a sentir o cheiro da terra molhada e da xepa da feira em São José, ...

manifestações em Portugal

Estão marcadas para daqui a pouco, em Lisboa e dezenas de outras cidades, grandes manifestações contra a política de austeridade do governo português. Não vou. Fui a outra passeata convocada pelo mesmo grupo em novembro passado e não creio que esta será muito diferente. Ademais, sempre me sinto um peixe fora d´água nessas ocasiões, quando inevitavelmente me lembro de que este não é o meu país e esta não é a minha luta. Não sei se o governo - daqui ou do Brasil - teria a capacidade de adotar política distinta daquela praticada até agora, vide as circunstâncias difíceis que envolvem a recuperação econômica da Europa e o futuro de Portugal. Fico em casa, portanto, mas lerei com atenção os jornais de amanhã para saber como correu o protesto. Espero que não haja feridos, ao contrário do que tem ocorrido por aqui. Os ânimos estão exaltados. Minha memória subitamente evoca outras manifestações que presenciei no Brasil, Irã, França... cada uma delas, uma promessa de mudança que inv...

queda

Escorregou do janela do oitavo andar incerto da gravidade, pairou diante do parapeito por um instante, flutuou durante os primeiros metros mas logo a queda obteve a validação da realidade e a aceleração cumpriu a sua parte, deu uma pirueta e sumiu dos olhos desesperados que o contemplavam impotentes da janela, decretou seu voo e o corpinho rígido desabou no estacionamento do prédio, estava distante mas podia jurar ter ouvido o torso se partindo, os braços se quebrando, a cabeça se separando do pescoço e rolando para o lado, os guinchos infantis ecoando lá de cima enquanto a mãe o abraça apertado: - Que pena! Não tem problema, mamãe compra outro...

um problema familiar

Bóris ficou puto quando soube que Olga pretendia alterar o sobrenome. - Um absurdo! Quer me matar, é isso? - Papai, não posso mais ser chamada por esse nome! O senhor não sabe o que sofri na escola, na faculdade, com meus amigos, namorados! - Tolices! É um preço muito pequeno a pagar pela honra de ter um nome tão nobre! Os Shoxhota descendem de reis, já foram donos de um império! Agora você quer apagar, de um só golpe, nossa história gloriosa! - Isso foi na Rússia, papai! No Brasil é diferente! Todo mundo goza de mim por causa do nome. - Como, gozar de uma Shoxhota? Coisa da gente ignorante e atrasada deste país! Na Mãe Rússia, tivemos o mundo em nossas mãos! Seu tatatataravô, Ivan Shoxhotovich, foi secretário particular de Pedro o Grande! Ora, Dimitri Shoxhota era o homem mais rico de Moscou antes da Revolução! Olga enterra o rosto entre as mãos, mergulhada em soluços. Seu pai continua, aos berros: - Eu sou um Shoxhota! Você é uma Shoxhota! E, um dia, será uma gran...

calçada

Encontram-se na rua, no elevador, no bar, o lugar não importa. O que interessa são os esgares desajeitados, as frases vazias, a bagagem gigantesca de memórias que se estende atrás de um e do outro. - Tempão, né? - Como vão as coisas? - Morando por aqui? Perguntas que tentam preencher o silêncio, que eles temem demais. - Trabalhando... - Saindo pouco... - Continuo solteiro... Lembram-se de "Sinal Fechado", de Chico Buarque, e sua admoestação final, "vai abrir, vai abrir, adeus, adeus...", soando como um veredicto amargo na boca de um juiz. Ouviram a música juntos num show de Paulinho da Viola, e jamais saberão que a mesma lembrança ocorreu aos dois nesse mesmo instante. - Bonito, esse brinco. - ele diz. - Obrigada. - ela responde - Ganhei da minha prima. Mentira. Ganhou dele de aniversário, há dois anos. Ela anseia que ele não se lembre. Em vão. - E você está mais elegante. - ela solta num impulso, arrependendo-se do comentár...

I've requested her kiss

I've requested her kiss among the tumultuous crowd The walkers raging, the mourners mourning, The dying of the light and the coming of the night. The time is nigh, they were saying, while we stumbled, Trying to kiss, trying to breathe, Away from the mildest breeze, swaying, swiverling, Falling to the ground, our attention Caught in either kissing or walking, Loving or living, Adrift in the mysterious raucus of the city, The somber looks, the unfriendly gazes, The pointless recurrence of steps and grimaces, The polite measures, the artificial gestures, The codes, the titles, the hierarchical procedures Designed to imprisomn Creation's mistress, The cold rules, the cruel laws, the pavement. Against all those foes our kiss fainted, Tumbled and dissolved below the pavement.
só eu sei das noites maldormidas das paredes brancas e fantásmicas, do ranger de dentes e das unhas contra as palmas, da tentativa de segurar forte contra o meu vazio. só eu sei porque só eu estive aqui só eu sei da solidão de uma noite e de um dia da beleza e da tristeza de um raio de sol num dia frio do vento frio e da indecisão de partir da derrota só eu sei porque só eu estive aqui