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(sem título)

Não faz muito tempo, passei por uma época negra em minha vida. Foi quando meti na cabeça a tolice de querer ser escritor. Desse ponto em diante, tudo o que compunha minha vida, meus conhecidos, os lugares que visitava, voltou-se para esse único objetivo fugaz, essa obsessão inconsequente de que eu poderia me sustentar com o que escrevia. Acreditei nessa quimera o suficiente para deixar a casa de meus pais e alugar um apartamento barato na periferia, e devo ter sido bastante convincente, pois minha namorada resolveu fazer o mesmo e fomos morar juntos em nosso novo cafofo do amor.  Infelizmente, minha convicção não se revelou veemente o bastante a ponto de vencer minha lendária preguiça, de modo que, passados seis meses, o saldo de minha aventura literária se resumia a quatro contos em séria necessidade de revisão e dois meses de aluguel atrasado. Comíamos duas refeições por dia com os restos que minha namorada trazia do restaurante fast-food onde trabalhava, e eu, um Balzac ti...

o assassinato de gonzalo

O trem atrasa. Os passageiros já embarcamos todos, mas a composição permanece imóvel, aguardando o impulso que a colocará lentamente em movimento. Um momento instável, que sempre me desperta uma fagulha de medo como a avisar que se lida aqui com forças muito além do alcance de um homem,  capazes de me despedaçar em caso de distração. Para mim, uma viagem de trem sempre tem início com tal angústia, antes que eu possa me ajeitar no assento e adquirir a placidez bovina que se espera de todo passageiro.  Desta vez, porém, o impulso não vem na hora marcada. Cinco, dez minutos se passam, observo a plataforma parada, partem outros trens e nada. Para passar o tempo, concentro-me nos pequenos sons do interior do vagão: o suave bater do teclado do laptop pertencente ao rapaz à minha frente, o farfalhar do saco plástico de alguém desembrulhando o lanche, os murmúrios de uma conversa entre duas moças. Um dos sons distingue-se, soberano, quase imediatamente: a voz masculina a conve...

crônicas do planeta eu (1)

se eu falasse a língua dos anjos, provavelmente seria gago. * Desejava secretamente casar com uma Márcia, só pra tocar "Márcia eu te amo" de Baden Powell e confessar de joelhos diante dela: - Márcia, eu te amo. Casou com Deolinda, que não conhecia Baden Powell mas a quem se acostumou. * - Meu, semana que vem estréia o filme dos Vingadores. - Meu, muuuito legal! Passei minha vida inteira esperando esse filme!! - Olha só, saiu a Playboy da Adriane Galisteu. - Muito bom, meu, tô esperando minha vida inteira por essa revista! - É a terceira vez que ela sai na capa. - Sim, mas a cada vez ela tá melhor. - Vem cá, e o encontro com a mina ontem, como foi? - Ah, já viu, né? Ela me deixou quinze minutos esperando, meu. Quando chegou, dei um gritão na cara dela e fui embora. - Você esperou a vida toda pelos Vingadores mas não pode esperar quinze minutos pela mina? * Meu primeiro conto em francês: It était un garçon appellé Jacques. Il a eu un chat. Le chat ét...

valter

Nossa, que pitéu, pensou Valter ao ver a gata encaminhando-se para o fundo do vagão, os olhos verdes evitando estranhos, decerto teria sido desejada por outros Valters, precavia-se contra gaviões, e por isso o nosso Valter apenas a observava discretamente, pensando no que diria quando descessem na mesma estação, desculpa mas você é muito linda, qual o seu nome, quer tomar um café, ele era assim, direto e desconcertante, desarmava as mulheres logo de início sem firulas, desse modo papava muitas, não à toa o chamavam Valter Perigo. Ainda calibrava o discurso quando notou que a gatchênha se preparava para sair na estação seguinte, aprumou-se e esperou que passasse por ele, faria a abordagem no caminho à superfície, o pior que poderia acontecer era levar um não e ter que pegar outro trem, a gata valia o contratempo. Aprochegava-se à porta sem tirar os olhos da moça quando sentiu um esbarrão, uma velhinha de bengala, bufando de cansaço, equilibrava-se porcamente para também desem...

cisne

Bebo café numa xícara. É bege, estilo antigo, flores pintadas ao redor, lasca arrancada da asa. Mas a xícara não existe. O café está frio. Esperei muito antes de tomar. Mas não há café. O tempo não existe. O café esquentou novamente, posso bebê-lo. A asa se encontra perfeita, sem uma única falha. A xícara flutua no ar. Eu não existo. Seguro uma caneta. Não, um lápis. Digito a palavra "digito" no teclado. Substituo o "d" pelo "D". A meu lado, uma xícara fumegante. Bebo: é chá. O líquido escorre para cima, que agora é embaixo, e bato com a cabeça no teto, que agora é chão. Consulto o relógio. São oito e vinte e três da noite. Dez e cinquenta e um da manhã. E quarenta segundos. Vinte e cinco. Lituânia. O tempo não existe. Ouço uma voz feminina vinda da cozinha a gritar que o café está pronto. Mas moro só. E sou surdo. E analfabeto. E você não existe. Bom dia.

o óbvio

Ah, é você. Entra. Sim, fui eu quem mandou aquelas acusações pra imprensa. Sei que vai refutá-las. Deveria. Mas não vai adiantar nada. Sua carreira está arruinada. Seus filhos vão cuspir na sua cara. Sua mulher vai te deixar. Espero que goste da solidão. Mesmo que não vá pra cadeia, cairá num inferno pior. Nenhuma mulher vai voltar a olhar pra você, jamais. Está flácido. Provavelmente nem consegue botar teu negócio pra cima. O porquê? Como assim, por quê? Eu te invejo. Não é óbvio? Sempre invejei. Sempre quis tuas coisas. Acho você um bosta. Um bosta que nunca mereceu o que tem. Eu é que devia ter tido uma vida como a sua. Mas agora é tarde. Pra mim, pra mudar o rumo da minha vida, e pra você, pra recomeçar do zero. Estamos os dois no fundo do poço e ninguém vai jogar corda nenhuma. É isso. C´est ça. Acabou. Que é isso na sua mão? Uma arma? Que clichê. Vai fazer o quê? Me matar? Uuh, que medo. Olha só, estou tremendo de medo. Cagão. Você não tem coragem pra puxar es...

o meu

Aqui, ó. Nossa, como é pequeno. Pequeno nada, você já viu outro pra dizer que é pequeno? Só o de papai, no banho. Mas ele é gente grande, né. Posso pegar? Pode. Hm. Ai! Desculpa! Não puxa, né? É molinho, parece um peixinho. Pega de novo. Você tá se mexendo, dói? Não, dá cosquinha. É bom de pegar. Tá bom, mostra o seu agora. Aqui, ó. Não tem cabelo, não? Não. Sempre tem quando vejo na revista do meu primo. Mamãe disse que depois cresce. É lisinha. É. Vai muito fundo? Não. Posso pegar? Não! Como assim, você pegou no meu! Mas eu tenho vergonha! Deixa, vai. Não. Por favor. Não deixo. Se você deixar, faço o que você quiser. Faz mesmo? Faço. Então me dá um beijo. Eca! Por quê, eca?! Que nojo, beijar menina. Me beija senão não deixo pegar! Ai, que saco, tá bom, xuac. Na bochecha não, na boca! Pôxa... mas você promete que não conta pra ninguém? Prometo. Xuac, pronto, posso pegar? Pode. Hm. Ui, que mão fria! É lisinha, mesmo. Tá bom, tira. Se eu soubesse que era assim, não tinha beijado ant...